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A relativização estética e o empobrecimento da escuta musical

Anne Fourier

Diretora


Recentemente, a Gazeta do Povo trouxe à tona um tema incômodo, porém necessário: o empobrecimento progressivo da música, não apenas em termos estéticos, mas culturais, formativos e civilizatórios.


A relativização absoluta do que é belo, sob o discurso de que “tudo é arte” e “tudo é válido”, carrega em si uma desvalorização sem precedentes na história da música. Quando se coloca, no mesmo plano simbólico, obras de Grandes compositores da Música e produtos musicais de consumo imediato, não estamos celebrando diversidade, estamos abolindo critérios.


E a pergunta central é inevitável: o povo rejeita, de fato, o que é elaborado? Ou foi ensinado, ao longo do tempo, a não reconhecer mais o valor da complexidade?


O mito da rejeição popular

A história demonstra que grandes obras nunca foram rejeitadas por sua profundidade, mas por exigirem formação de escuta. Johann Sebastian Bach, Ludwig Van Beethoven e tantos outros não escreveram para elites herméticas, mas para sociedades que ainda compreendiam que o belo exige esforço, atenção e educação do sensível.

A rejeição atual não é espontânea; ela é construída.


A analogia do vinho: gosto não é argumento

Pensemos em um sommelier. Alguém que estuda terroir, processos, envelhecimento, notas, história. Agora, comparemos com quem consome exclusivamente uma bebida popular por hábito, acesso ou costume. Não há demérito algum nisso — mas há um limite claro de comparação crítica.


O erro moderno foi transformar gosto em argumento absoluto. Preferência pessoal não equivale a juízo estético. Assim como não se avalia um vinho raro sem repertório, não se avalia música sem escuta formada.


A falácia da permissividade estética

O discurso de que “arte não pode ser julgada” é uma das maiores armadilhas contemporâneas. Toda arte nasce de tradição, técnica, linguagem, ruptura consciente e domínio do meio. Negar isso é transformar a criação em ruído e a cultura em produto descartável.


Não se trata de elitismo, mas de responsabilidade cultural.


A indústria do ruído

Como bem aponta a reflexão trazida pela Gazeta, a indústria substituiu a harmonia pela repetição, a melodia pela saturação rítmica e o sentido pelo impacto imediato. O resultado é uma música que não convida à escuta, mas ao transe.


Esse fenômeno dialoga diretamente com o que John Taylor Gatto chamou de emburrecimento programado: uma sociedade treinada para consumir sem compreender, repetir sem refletir e aceitar sem critério.


Quando o repertório se empobrece, a escuta empobrece junto. E quando a escuta empobrece, perde-se a capacidade de distinguir o que é belo do que é apenas familiar.


Uma reflexão necessária

Só é possível dizer que algo é ruim — ou bom — quando se conhece o campo. A crítica nasce do repertório. Sem ele, resta apenas a repetição do que foi imposto como normal.

Talvez o debate não seja sobre gosto musical, mas sobre o direito à formação estética, à escuta educada e à preservação da música como linguagem civilizatória.


E isso, definitivamente, não é uma questão menor.


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**Terroir é um conceito de origem francesa, amplamente utilizado na enologia (estudo dos vinhos) e na gastronomia, para designar o conjunto de fatores naturais e humanos que influenciam diretamente a qualidade, o caráter e a identidade de um produto, especialmente o vinho.

Em termos objetivos, terroir envolve:

  • Solo (tipo de terra, minerais, drenagem)

  • Clima (temperatura, insolação, chuvas, altitude)

  • Geografia (localização, relevo)

  • Interferência humana qualificada (técnicas de cultivo, colheita e vinificação)

É por isso que um mesmo tipo de uva produz vinhos completamente diferentes dependendo do local onde é cultivada.

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